domingo, 22 de maio de 2011

Círculo

Não existimos
Não somos
Não fazemos questão de ser
e então nascemos

Nos encontramos
conversamos
a luz brilha nos seus olhos loucos
cada palavra sua é brasa
Eu me esquento esquento esquento
e aqueço o nosso castelo

Nosso castelo decadente
as paredes descascando
tudo ruindo
e sempre belo
O calor emanando da sua loucura
e eu adorando ser envolta por tanta confusão:
Amo os seus olhos loucos
Acesos
A sua mente que não para
As suas mãos doces

Você é insuportável

Eu corro corro corro
mas o nosso castelo esfria
é inverno em mim e em você
E estamos em pólos separados

Você se esforça para existir
Eu me esforço para resistir
a esses olhos loucos
que me perseguem
Eu me esforço para existir

Mas já não existimos mais
Não sorrimos mais
Não nos olhamos mais
Suas mãos já não são mais doces
E você ainda é insuportável
E eu ainda amo os seus olhos loucos
Acesos
A sua mente que não para

Eu amo você

E então nascemos de novo
e a sua loucura me aquece de novo
O nosso castelo de inverno volta a ser de verão
Até que o calor não é mais suficiente
e o nosso castelo esfria
e estamos em pólos separados
nos esforçando para existir
E eu continuo amando os seus olhos loucos
Acesos
A sua mente que não para
As suas mãos doces
Você

é insuportável

domingo, 8 de maio de 2011

Crônica

Os acordes da sua música favorita. Não existia mais nada no mundo além da certeza da minha presença naquela sala escura e aquele guitarrista, na minha frente, dedilhando intensamente os acordes da sua música favorita. E os meus olhos ardiam, porque tudo o mais era falta. E nem mais de chorar sou capaz. Durante aqueles minutos insanos, aquele solo de guitarra, todas as minhas incertezas planavam por ali, e eu gritaria, subiria no palco, se fosse necessário para me fazer acreditar em mim: eu fiz a coisa certa. Depois, aquela mão no meu ombro e sabia que eu era pura rigidez, e que olhava para frente com os olhos vidrados, porque tomava consciência do que teria daqui para frente. E depois daquela imagem me torturar até o final do solo eterno eu só pude concluir que tinha feito a coisa a certa mesmo. Que poderia subir ao palco e gritar "Tu serás feliz, Bentinho!", mesmo que Bentinho seja você. E enquanto minha mente estava bem longe de mim, o meu colo sentia o peso daquela cabeça e os meus dedos sentiam aquele cabelo macio. E eu quis desesperadamente que fosse o peso da sua cabeça, que fosse o seu cabelo seco aquele que meus dedos sentiam. Então lembrei: eu fiz a coisa certa. Na eternidade desses dias que parecem não terminar nunca, eu sou impiedosa e dedico todo o meu amor apenas a mim.

Eu fiz a coisa certa.