terça-feira, 18 de abril de 2017

passei dois anos assistindo filmes com protagonistas que eram mulheres e eram jovens
elas eram mulheres jovens e desequilibradas
de alguma forma tentavam encontrar um lugar no mundo
algumas enlouqueciam
algumas se embebedavam
algumas cometiam pequenos (ou grandes) delitos
todas se relacionavam com homens
que eram quase sempre mais velhos
que eram quase sempre manipuladores
que eram quase sempre motivo de disputa entre essas mulheres e outras
esses homens
de alguma forma usavam essas mulheres
para suprir algo
alguma necessidade
para preencher uma lacuna
algo que eles achassem que estava faltando
na vida deles
a vida delas quase sempre importava menos

Praça dos Estivadores

tocavam os tambores meu corpo dançava
é inevitável se o tambor toca o meu corpo dança.
olho pro outro lado da roda e te vejo faz um ano que não te vejo
mas o tambor toca e o meu corpo continua dançando trêmulo mas continua dançando.
você se aproxima dança atrás de mim acaba a música uma hora os tambores param mas debaixo do chão eles nunca param
e as minhas pernas não param de tremer e o suor não para de escorrer da minha testa
você pergunta como eu estou eu digo bem é mentira mas eu digo bem.
vem eu te pago uma cerveja hoje não posso beber vem eu te pago uma água.
aparece esse cara e pede autorização a você pra falar comigo
você banca o discurso feminista que eu sei que é falso e que o cara não compra porque saiu de outro tempo.
ele mostra a tatuagem de capoeirista e diz eu sou capoeirista vocês podem comprar um litro de leite pra mim?
centro do rio uma hora da manhã.
eu acabei de ler joão do rio eu me sinto no livro você diz eu vou onde ela for e eu quero muito saber onde aquele cara vai nos levar eu quero muito ouvir ele falar então eu vou.
alexandre mackenzie.
eu sou capoeirista e mostra a tatuagem pela terceira vez eu sou do bem meu pai é negro você também é negro eu tenho vontade de dizer mas não digo nada
da última vez que estive nessa praça (mentira não foi a última tiveram algumas dezenas de vezes depois dessa vez) estava com alguém que era igual a você mas não era você e ao deitar tive pesadelos de que era uma escrava e ele que é branco como você era o meu senhor e abusava de mim.
alexandre mackenzie.
o capoeirista com dois litros de leite agradece e segue seu caminho
você diz aposto que ele vai trocar esse leite por cachaça na próxima esquina mas a gente fez a nossa parte
eu digo a verdade não importa o que importa é a performance
você me olha espantado.
faz um ano que você não me vê.
centro do rio uma e meia da manhã
a gente continua andando.

Praça de Armas

o último abraço no meio da rua no meio do abraço não existe a rua
a gente se solta eu ando perdida por todas as ruas
buenos aires rio de janeiro eu ando
talvez não te encontre em nenhuma esquina talvez te encontre em todas
aquela primeira vez que te encontrei era uma esquina era uma praça era em cusco foi no rio
pego 3 aviões
te espero na chuva e sinto frio
não sei se você chega sei que você chega
vou e volto pra casa e sempre sei que você chega


No tengo miedo a la verdad
y lo que sucederá
podría perderme en esta felicidad
Cuando estás conmigo
la distancia y el silencio
son solo un instante que ya terminó


te vejo caminhando na rua escura você sorri me explica as altas e baixas de um rio poluído e eu várias vezes não entendo o que você diz e você várias vezes não entende o que eu digo mas eu gosto tanto do jeito que você fala...
aquele abraço na esquina na praça
era carnaval não era carnaval tinha purpurina e dor de barriga: era carnaval
você aparece e eu não sei o que fazer eu nunca sei o que fazer você chega e vai embora e eu acho que nunca mais te vejo sempre acho que nunca mais te vejo mas você sempre chega e vai embora
em alguma esquina eu vou te ver
posso pegar 3 aviões e voltar
te esperar na chuva
te ouvir falar sobre as altas e baixas de um rio
e o dia acaba
eu durmo sozinha e tranquila com a certeza daquela praça em que eu te vi


Como um bom barco no mar
Eu vou, eu vou
Como um bom barco no mar

Eu vou, eu vou

a anã de jardim não é uma anã mas na verdade um totem


As mulheres jovens eram sacrificadas porque o sangue das mulheres fertiliza a terra
Eu penso nessas mulheres e me pergunto se era uma escolha
Se elas queriam ser sacrificadas
Quais são as mulheres que são sacrificadas
Quais são as mulheres que são sacrificadas para o bem da comunidade?
É o meu sangue que fertiliza a terra?
É a minha carne que alimenta o meu povo?
(Quem é o meu povo?)
Quando eu morrer e me colocarem em posição fetal embaixo da terra,
Será que eu renasço?
Será que eu volto em forma de água?
Eu quero morrer e voltar em forma de água e molhar todas as plantas até que exista só planta e água
Não mais homem pra se alimentar da minha carne
Nem mais nada

sábado, 26 de março de 2016

Dei meu primeiro beijo aos 16 anos. Não sei se isso é cedo ou tarde mas quando eu era adolescente parecia tarde - praticamente todas as minhas amigas já tinham beijado -. Eu obviamente perdi as matinês e a excitação do flerte adolescente porque estava no meu quarto lendo. Não me arrependo. Não consigo me arrepender realmente de nenhuma escolha que eu tenha feito por mais estúpidas que as minhas escolhas possam ter sido. O nosso caminho é feito dos nossos erros e acertos e eu tento estar ok com isso.
Dei meu primeiro beijo aos 16 anos e só fui beijar outra pessoa aos 17. E depois senti muita angústia. Não exatamente porque essa outra pessoa era uma menina mas por causa do simples e natural fato de ter beijado alguém em uma festa, na frente de todo mundo do colégio (que nessa época era praticamente o mundo inteiro que eu conhecia). Eu lembro que várias pessoas ficaram impressionadas com isso também, lembro de alguém me dizendo "eu não estou impressionada porque você beijou uma menina, eu estou impressionada que você tenha beijado alguém". Não tenho certeza se isso é algo que se diga a alguém, não aconselho. Entre um beijo e outro, no entanto, eu também estava muito angustiada, vivendo a minha adolescência de forte repressão sexual e culpa cristã. Fiz anos de terapia e não consegui entender o que me levou a esse lugar de não me permitir sentir desejo por ninguém. No fundo, acho que foi sempre o medo da rejeição. A insegurança era tanta que era mais fácil fingir que não me interessava por ninguém do que encarar que outra pessoa podia não se interessar por mim. Eu me sentia feia nesse único universo escolar que eu conhecia, em que todas as "meninas bonitas" eram completamente diferentes de mim. De qualquer forma, quando todas as pessoas te acham fechada e inatingível e fazem questão de te dizer isso, você acaba acreditando que é de fato fechada e inatingível e quando a sua a natureza te lembra que você também sente desejo é difícil conseguir lidar bem com ele.
Com 18 anos, já na faculdade, ainda virgem (o que era razão de algum constrangimento no trote, você não é tão legal quando entra numa faculdade de ~artes~ sendo virgem), começo a tentar me libertar - talvez os vários anos de terapia tenham dado algum resultado - mas aí logo de cara eu me apaixonei. Perdi a virgindade em um namoro monogâmico e burguês com um namorado carinhoso e paciente, como deve ser. O ruim de ser muito jovem e estar em um relacionamento com um homem é que, por mais que ele seja uma ótima pessoa, parece que funciona a lavagem cerebral de pensamentos retrógrados que fazem uma menina jovem acreditar que tem que fazer sexo até quando não está muito afim porque o namorado está. Foi esse o momento em que comecei a acreditar que talvez não gostasse muito de sexo - as vezes ainda acredito nisso. Quer dizer, é claro que eu gosto mas consigo pensar em várias outras coisas que me fazem mais felizes que sexo.

Enfim, no final de 2014, com 20 anos, fiquei sem namorar pela primeira vez desde os 18. Depois da adolescência de autorepressão e os namoros nos quais eu era obrigada a lidar constantemente com as demandas sexuais de outra pessoa, me vi pela primeira vez livre. Seja lá o que essa palavra significa. Porque no fundo, você não é livre. A impressão que eu tenho é que se você decide ficar um longo período sem ficar com ninguém, todo mundo a sua volta tem certeza absoluta de que tem alguma coisa errada. Aí você começa a ficar com alguém as vezes e quando se dá conta está transando com pessoas só porque é uma oportunidade de transar, sem ter realmente vontade. Então você se relaciona com alguns homens que parecem nem se preocupar se você é realmente um ser humano. De repente, vi minha energia ser completamente sugada por estar desperdiçando ela com uma porção de gente que não está realmente disposta a trocar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

"e aí"


há semanas penso em como começar o poema que eu gostaria de te escrever
não consigo,
então desenho objetos fálicos no meu caderno.

escolho alface no self-service,
lamento a minha falta de apetite
vejo a sua cara enquanto a gente fazia sexo
penso que é engraçado:
eu estava quase sempre de olhos fechados
você quase sempre de olhos abertos


*

te vejo de boina apoiado na bicicleta baixa
você sorri
se sorrio de volta, não é você
se não sorrio, não é você


terça-feira, 8 de julho de 2014

lp

você fuma os seus cigarros matinais e eu te observo
sua rotina diária inabalável
você se senta curvado de frente para o computador
seu café na caneca do pink floyd
ao fundo, jim morrison me olha
eu olho pra você

.

eu acordo com você e 
fico feliz pelo calor que emana
das correntes minúsculas que fluem entre
os nossos corpos relaxados na cama

eu quero viver no 
eterno acordar de olhar para o lado e
ver você me sorrir
e saber que 
por mais um dia
nós estamos bem

por mais um dia
cada dia é um dia

.

nós dois 
a saveiro branca
uma estrada verde azul infinita e eu
canto a plenos pulmões
i was alone a took a ride i didn't know what i would find theeeeeeeeereeeee

eu nunca amei tanto na vida
eu sinto medo

.

de repente, a vida
de repente, eu
quantas vezes na vida eu esbarro em mim me boicoto perco as melhores coisas
porque eu
tenho
medo

.

a desarmonia 
as correntes minúsculas que fluem parecem que não fluem 
a gente não se entende
parece que pela primeira vez nem a música nos salva
nem a literatura
nem os passarinhos
...

and at the final moment i cried 
i always cry at endings

.

a pior 
parte de
todas:
eu ainda te amo.
e muito.